sábado, 20 de abril de 2019

Conceção artística: A importância da forma

Olhar absorto para a pedra imóvel e deparar-se com uma enormidade de pensamentos despoletados, não faz da pedra um objeto artístico. Nem tão pouco um objeto de reflexão, que, por ali ter sido posto por qualquer mão desencontrada, fez lembrar ao transeunte um outro dia em que caiu ao passar no aqueduto, ou no parque, ou noutra remota localidade que aqui não vem trazer diferença.  Por aqui se pode começar a exposição de uma opinião que, diga-se, mais não precisou para ser formada que a indignação individual de seu cansado portador.   Ao juntar-se a tantos outros, Mário Cunha Reis veio expor, em sua página de Facebook, alguns exemplos de arte contemporânea que, de seu ponto de vista, e conforme nos diz o que deixou escrito, houveram sido criados por aqueles que são “subsidiados pelo Estado socialista”. Façamos desde já a ressalva de que, assim o diz o autor, disposto a arcar com as consequências que deste texto possam vir a resultar, a qualificação que se atribui a um objeto, quando de arte estamos falando, não diz dele aquilo que ele é na realidade, antes dele diz aquilo que é quem dele diz. Acresce que tudo o que se tem dito sobre a Arte é, no mínimo, sinuoso.  
Em primeiro lugar, uma obra de Arte é, necessariamente, uma obra. Daqui se depreende a necessidade capital de que seja algo finito, um estado final de alguma coisa que não continue sendo alterada a bel-prazer vantajoso de seu prezado criador. É justamente isso que, imagine-se, a distingue por exemplo da Filosofia, da qual a caraterística primordial é a inevitabilidade de sua própria mutação, ou, melhor dizendo, a alteração contínua consequente das contribuições mais ou menos pertinentes de quem ao comboio do raciocínio se veio também associar.  Convém, portanto, que à obra de arte não venha a ser acrescido qualquer dado posterior à sua própria conceção, não de caráter significativo ou complementar, porque a obra de arte deve definir-se sobretudo pela sua incondicional completude, isto é, pelos seus limites, desde a primeira gota ainda branda do pincel do pintor ao último fio desgovernado do cabelo enorme da retratada.   Podemos assim, para os mais necessitados de pontos de situação, de considerações finais ou moral da história, assumir o seguinte: a Arte está irremediavelmente ligada à forma.  
Uma vez que a ocasião nos não inibe e as circunstâncias o não desaconselham, continuemos usufruindo da primeira comparação que há linhas atrás foi utilizada. Também da Filosofia a Arte se distingue porque a forma que a esta última verificámos ser necessária deve ser física, visível e sensível, ao contrário do que acontece com os diálogos de Platão, ou com o pouco ou muito que, através dele, sabemos de Sócrates, por nada disto nos ter deixado. Outra ajuda aos desprovidos: uma filosofia pode ter uma existência imaterial, uma obra de arte jamais. Através das partes faltantes, assim, uma obra de arte não pode ser julgada, independentemente de quais tenham sido, sejam ou venham a ser as intenções mais ou menos ambiciosas de seu empolado criador. Por exemplo, se ao caminharmos por uma galeria nos depararmos com a presença de um quadro todo negro, quadrado, de cujo eventual enquadramento temático só por nós é deduzível mediante a notação do título que, metros ao lado, está impresso no folheto, e consoante a explanação espontânea do pintor acerca de suas reais intenções que, atenção, de seu ponto de vista servem como complemento necessário de sua obra, então estamos perante a eventual existência, para não dizer mais, de uma obra de arte e de um discurso verbal. Duas coisas diferentes. Pois se o próprio autor considerou que a obra só fica completa depois de transmitido seu discurso adicional, não existe obra de arte nenhuma, existe um objeto que poderia, na prespectiva do autor, vir a ser considerado como tal, mas que para isso lhe falta algo necessário que implica um completamento posterior. Ora, uma vez morto o criador, quem nos garante que não virá alguém que, com o avançar do tempo, e por dispor de maior dom de palavra, exercerá melhor o discurso outrora empregue pelo autor? Deixando assim na dúvida todo o público admirador que até aqui julgava ter compreendido mas que afinal não compreendeu. 
 Há contudo uma condição para que uma obra nestes moldes possa servir à definição daquilo a que chamamos obra de arte: se o discurso complementar for sempre, sempre sempre o mesmo, como uma letra de uma música que, por estar sujeita ao tempo existente em que cabe cada verso, digamos métrica, não pode ser alterada, perdendo por consequência o sentido, a forma e a completude. Chegamos assim à conclusão de que uma obra de arte é necessariamente definida pela forma, e nada importam os elementos materiais ou palpáveis que a compõem.   Ora se a forma é a condição capital, depreende-se portanto que o próprio conteúdo lhe é subordinado, não vale nada intrinsecamente nem nada significa por si só, pois está sujeito à forma que o criador lhe atribuiu. As convicções e crenças do criador de uma obra de arte são de nula influência no que concerne à interpretação exterior e posterior de sua obra. Tal como nos diz o professor Olavo de Carvalho, de quem os ensinamentos muito serviram de proveito ao autor deste texto, ninguém precisa de ser protestante para apreciar J.S. Bach. Eu próprio, que por ano e meio me debrucei sobre a obra Saramaguiana, quando vim a descobrir o mundo além do comunismo e voltei a tornar-me cristão, nem por isso desconsiderei o valor artístico que outrora atribuíra a romances como O Memorial do Convento ou o Ano da Morte de Ricardo Reis. Mesmo O Evangelho segundo Jesus Cristo, com todo o caráter herético e provocatório dispõe de um grande valor artístico por culpa da forma com que o texto foi redigido. Porque a obra de arte não é a afirmação de um conteúdo moral, político ou teológico, mas a criação de uma forma que abrange vários conteúdos, sendo isto que a define. Assim, fazendo nós mais um ponto de situação: qualquer caso em que a apreciação de uma obra de arte não possa ser separada da adesão ao seu conteúdo moral, religioso ou político, não é uma obra de arte. Voltando a Saramago, muito embora o conteúdo religioso e politico seja característica indispensável de sua obra, acontece que o autor conseguiu, em larga escala, sobrepor a forma ao conteúdo de seus textos, sendo muitas vezes apelidado, diga-se contudo que de maneira redutora, por o autor que não utilizava pontuação. Prova real do dito antes.   Posto isto, e de todo o modo, das obras em si que motivaram a redação deste artigo, se este nome bem merecem, não se fará pormenorizada descrição ou julgamento. A importância está em estabelecer o critério para a qualificação, este em que muito acredito conforme aqui o terei exposto. Dos quadros dos quais Mário Cunha Reis publicou algumas fotografias, não vejo em qualquer um deles uma vertente ideológica, seja religiosa, filosófica, moral ou política, que, por si só, se sobreponha à forma física com que as mesmas foram concebidas. Se são ou não objetos belos, e portanto merecedores de reconhecimento artístico, é uma outra questão a que prefiro não responder, sob pena de me encontrar envolto num outro tema sobre o qual me não debrucei o suficiente, que seria então que características tem de ter um objeto para que possa ser considerado belo? Ainda que este seja um ponto com o anterior relacionado, não são uma e a mesma coisa. A beleza de uma criação independe do seu eventual valor artístico, mas, ao contrário, o mesmo não se verifica, isto é, o valor artístico de uma obra está obrigatoriamente relacionado com a presença da beleza, esta que, segundo creio, deve ser maioritariamente depreendível através da apreciação sensível do espetador.   Termine-se contudo o texto com a recompensa merecida pelo estimado leitor, que até aqui veio concentrado e de quem se espera que daqui vá embora pensativo, não fosse verdadeira aquela ideia que nos demonstra que tanto importa a quem lê que foi que o sujeito escreveu como também quem escreveu aquilo que agora está sendo lido. Não é a exposição de um urinol que é feia, é o próprio urinol que é feio, ouviste Dunchamp? Depreendam vós agora o resto, olhando absortos para uma pedra.